Estratégias, diretrizes e ações para enfrentar as defasagens de aprendizagem agravadas pela pandemia de COVID-19 e promover a equidade educacional.
📖 Resumo aprofundado – Decreto nº 12.391/2025
Um pacto nacional para garantir o direito à aprendizagem pós-pandemia
O Decreto nº 12.391, de 28 de fevereiro de 2025, instituiu a Política Nacional de Recomposição das Aprendizagens, uma resposta articulada do governo federal aos graves impactos da pandemia de COVID-19 sobre a educação brasileira. O fechamento prolongado das escolas, as dificuldades de acesso ao ensino remoto e o agravamento das desigualdades sociais resultaram em defasagens significativas de aprendizagem, especialmente entre os estudantes mais vulneráveis. O decreto estabelece um conjunto de diretrizes, estratégias e ações, a serem implementadas em regime de colaboração entre União, Estados, Distrito Federal e Municípios, com o objetivo de garantir o direito à aprendizagem de todos os estudantes da Educação Básica, recompor as habilidades essenciais não consolidadas e promover a equidade educacional. Para o professor, compreender essa política é fundamental, pois ela orienta as prioridades curriculares, as estratégias pedagógicas e os recursos disponíveis para apoiar os alunos em sua trajetória de recuperação.
🔍 O que é Recomposição da Aprendizagem?A recomposição da aprendizagem vai além da simples "recuperação" de notas ou da aceleração de conteúdos. Trata-se de um processo intencional, planejado e sistemático de diagnóstico das lacunas de aprendizagem, priorização das habilidades essenciais (aquelas que são pré-requisito para aprendizagens futuras), e implementação de estratégias pedagógicas diversificadas para garantir que todos os alunos desenvolvam as competências e habilidades previstas para sua etapa de escolarização. Não se trata de "voltar atrás" e repetir todo o conteúdo, mas de identificar o que é essencial e garantir que ninguém fique para trás.
1. Contexto e Justificativa: Os Impactos da Pandemia na AprendizagemA pandemia de COVID-19 representou a maior interrupção da história da educação mundial. No Brasil, as escolas permaneceram fechadas por longos períodos, e o ensino remoto emergencial, embora tenha sido um esforço hercúleo de professores e redes, não conseguiu alcançar a todos com a mesma qualidade. Os impactos foram desiguais, afetando de forma mais severa os alunos de baixa renda, das áreas rurais, com deficiência e aqueles que já enfrentavam dificuldades de aprendizagem. Dados do SAEB e de avaliações estaduais e municipais evidenciaram:
- Queda significativa nos níveis de proficiência em Língua Portuguesa e Matemática em todos os anos avaliados.
- Aumento da distorção idade-série e do risco de evasão escolar.
- Agravamento das desigualdades educacionais entre regiões, redes de ensino e grupos sociais.
- Prejuízos no desenvolvimento socioemocional dos estudantes (ansiedade, depressão, dificuldades de socialização).
O Decreto nº 12.391/2025 reconhece esse cenário e estabelece a recomposição das aprendizagens como uma prioridade nacional, articulando esforços e recursos para enfrentar esse desafio histórico.
2. Objetivos e Princípios da Política Nacional de Recomposição das AprendizagensO decreto estabelece objetivos claros e princípios orientadores para a política. Os principais objetivos são:
- Garantir o direito à aprendizagem de todos os estudantes da Educação Básica, em todas as etapas e modalidades.
- Reduzir as desigualdades educacionais, com foco prioritário nos estudantes em situação de maior vulnerabilidade socioeconômica, étnico-racial, com deficiência e das áreas rurais.
- Promover a equidade, oferecendo mais apoio a quem mais precisa.
- Fortalecer o regime de colaboração entre União, Estados, Distrito Federal e Municípios.
- Articular a recomposição das aprendizagens com outras políticas educacionais (BNCC, PNE, Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, Programa Escola em Tempo Integral).
Os princípios incluem: centralidade do estudante e de sua aprendizagem; valorização dos profissionais da educação; uso de evidências científicas e dados para a tomada de decisão; gestão democrática e participação da comunidade escolar; e transparência e controle social.
3. Eixos Estruturantes da Política de RecomposiçãoO decreto organiza a política em quatro eixos inter-relacionados:
- Eixo 1 – Diagnóstico e Mapeamento das Aprendizagens: Realização de avaliações diagnósticas periódicas, em âmbito nacional, estadual e municipal, para identificar as lacunas de aprendizagem de cada aluno, turma, escola e rede. O decreto prevê o fortalecimento do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) e o incentivo ao uso de plataformas digitais de avaliação formativa. O diagnóstico deve ser o ponto de partida para o planejamento das intervenções.
- Eixo 2 – Priorização Curricular e Organização do Trabalho Pedagógico: A partir do diagnóstico, as redes e escolas devem priorizar as habilidades essenciais da BNCC, especialmente aquelas que são pré-requisito para a continuidade dos estudos (habilidades estruturantes). Isso não significa abandonar o currículo, mas sim focar no que é fundamental, garantindo que os alunos tenham a base necessária para avançar. O decreto incentiva a organização do trabalho pedagógico em ciclos, agrupamentos flexíveis e a articulação entre os professores.
- Eixo 3 – Estratégias Pedagógicas e Apoio aos Estudantes: Implementação de um conjunto diversificado de estratégias para atender às necessidades específicas dos alunos. As principais estratégias previstas são:
- Agrupamentos flexíveis: Organizar os alunos em grupos temporários, de acordo com seu nível de aprendizagem em determinada habilidade, para receber intervenções mais direcionadas.
- Tutorias: Oferecer apoio pedagógico individualizado ou em pequenos grupos, realizado por professores, estagiários de licenciatura, monitores ou voluntários.
- Atividades de recomposição no contraturno escolar: Utilizar a jornada ampliada (especialmente nas escolas de tempo integral) para oferecer atividades de reforço, aprofundamento e recuperação.
- Material didático estruturado e recursos educacionais digitais: Disponibilizar materiais de apoio alinhados à BNCC e focados nas habilidades prioritárias.
- Apoio socioemocional: Reconhecer a importância da dimensão socioemocional e oferecer suporte aos estudantes que apresentem sofrimento psíquico ou dificuldades de socialização.
- Eixo 4 – Formação Continuada de Professores e Gestores: O decreto reconhece que a recomposição das aprendizagens exige professores bem preparados. Prevê a oferta de formação continuada específica para os profissionais da educação, abordando temas como: avaliação diagnóstica e formativa; priorização curricular; estratégias de ensino para turmas heterogêneas; uso de metodologias ativas; e atenção à dimensão socioemocional.
📌 Exemplo de Priorização Curricular (Matemática – 5º ano):A avaliação diagnóstica revela que muitos alunos do 5º ano não dominam as operações de adição e subtração com reagrupamento (habilidade do 3º ano) e têm dificuldade com a tabuada (habilidade do 2º/3º ano). Em vez de avançar para conteúdos mais complexos (frações, números decimais), o professor, com apoio da coordenação, planeja um período de "recomposição" focado nessas habilidades estruturantes, utilizando agrupamentos flexíveis, jogos e materiais concretos. Só depois de consolidada essa base, o currículo do 5º ano é retomado.
4. O Papel do Professor na Recomposição das AprendizagensO professor é o principal agente da recomposição das aprendizagens. Sua atuação é insubstituível. O decreto e as orientações dele derivadas atribuem ao professor um papel central:
- Realizar e utilizar avaliações diagnósticas e formativas: Conhecer profundamente o que cada aluno já sabe e o que ainda precisa aprender. Utilizar esses dados para planejar as aulas e as intervenções.
- Priorizar as habilidades essenciais: Com base nas orientações curriculares de sua rede, identificar as habilidades que são pré-requisito e concentrar esforços nelas.
- Diversificar as estratégias de ensino: Utilizar metodologias ativas, trabalho em grupo, agrupamentos flexíveis, ensino híbrido, jogos e recursos digitais para atender à diversidade da turma.
- Oferecer feedback constante e formativo: Informar o aluno sobre seu progresso, apontar o que já foi alcançado e o que ainda precisa ser melhorado, de forma encorajadora.
- Articular-se com os colegas: Participar de planejamentos coletivos, trocar experiências e alinhar as estratégias de recomposição com os professores da mesma turma, do ano anterior e do ano seguinte.
- Acolher a dimensão socioemocional: Estar atento aos sinais de sofrimento psíquico dos alunos, criar um ambiente de segurança e confiança, e promover atividades que desenvolvam a empatia, a cooperação e a resiliência.
- Participar da formação continuada oferecida: Aprimorar constantemente seus conhecimentos e práticas sobre recomposição da aprendizagem.
⚠️ Cuidado com a "Aceleração" sem Aprendizagem:Um risco da recomposição é a tentação de "acelerar" o currículo para "dar conta" de todo o conteúdo, sem garantir que os alunos realmente aprenderam o essencial. A recomposição bem-feita exige um ritmo adequado, que pode ser mais lento no início, para consolidar as bases, e depois acelerar quando os alunos estiverem mais seguros. O foco não é "passar o conteúdo", mas garantir a aprendizagem. Outro risco é a estigmatização dos alunos que participam de atividades de reforço ou tutorias. É importante que essas atividades sejam apresentadas como oportunidades de crescimento, e não como punição ou sinal de "fracasso".
5. O Regime de Colaboração e o Financiamento da RecomposiçãoO Decreto nº 12.391/2025 reforça a necessidade do regime de colaboração entre os entes federados. A União, por meio do MEC e do FNDE, tem o papel de coordenar a política nacional, oferecer assistência técnica, disponibilizar plataformas e recursos digitais, e repassar recursos financeiros suplementares para estados e municípios. Os estados e o Distrito Federal devem elaborar seus planos estaduais de recomposição, apoiar tecnicamente os municípios e implementar as ações em suas próprias redes. Os municípios devem elaborar seus planos municipais, alinhados ao plano estadual e nacional, e executar as ações nas escolas. O financiamento da política provém de fontes diversas, incluindo recursos do orçamento da União, do FUNDEB, de parcerias com organismos internacionais e de programas como o Programa Escola em Tempo Integral.
6. A Recomposição das Aprendizagens e a Educação IntegralO decreto estabelece uma forte articulação entre a Política de Recomposição das Aprendizagens e o Programa Escola em Tempo Integral (Lei nº 14.640/2023). A jornada ampliada das escolas de tempo integral é vista como um espaço privilegiado para a implementação das estratégias de recomposição, como:
- Oferta de atividades de reforço escolar e tutorias no contraturno.
- Desenvolvimento de projetos interdisciplinares que abordem as habilidades prioritárias de forma contextualizada e significativa.
- Realização de oficinas de leitura, escrita e matemática.
- Utilização de laboratórios de informática e outros espaços para o uso de recursos educacionais digitais.
- Promoção de atividades esportivas e culturais que contribuam para o desenvolvimento integral e para a melhoria do clima escolar e da motivação dos alunos.
🧪 Recomposição e o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada:O Decreto nº 12.391/2025 dialoga diretamente com a Lei nº 15.247/2025 (Compromisso Nacional Criança Alfabetizada). A recomposição das aprendizagens nos anos iniciais do Ensino Fundamental tem um foco especial na alfabetização, buscando garantir que todas as crianças estejam alfabetizadas até o final do 2º ano, conforme a nova meta nacional. As estratégias de formação de professores, avaliação e material didático previstas no Compromisso Nacional Criança Alfabetizada são também ferramentas para a recomposição.
7. Desafios para a Implementação da Política de RecomposiçãoA implementação efetiva da Política de Recomposição das Aprendizagens enfrenta desafios significativos, muitos deles estruturais:
- Formação de professores: A formação inicial e continuada precisa preparar os professores para lidar com turmas extremamente heterogêneas, realizar avaliações diagnósticas e formativas de qualidade, e utilizar estratégias diversificadas de ensino.
- Condições de trabalho: Turmas numerosas, falta de tempo para planejamento e estudo, e sobrecarga de trabalho dificultam a implementação de práticas mais individualizadas e o acompanhamento próximo dos alunos.
- Infraestrutura e recursos: Muitas escolas não possuem espaços adequados para o contraturno, laboratórios de informática funcionais, ou acesso à internet de qualidade para utilizar os recursos educacionais digitais.
- Engajamento das famílias: A recomposição exige uma parceria estreita com as famílias, que precisam compreender a importância das atividades de reforço e apoiar a frequência dos filhos.
- Risco de "estreitamento curricular": A ênfase nas habilidades prioritárias de Língua Portuguesa e Matemática não pode levar ao abandono das outras áreas do conhecimento e das dimensões artística, cultural e esportiva. A recomposição deve ser integrada ao currículo como um todo.
❗ Erro comum:Tratar a recomposição como um "programa" de curto prazo, com data para acabar. A recomposição das aprendizagens é um processo contínuo, que deve ser incorporado à cultura da escola. Mesmo após a superação das defasagens mais graves da pandemia, a avaliação formativa, a atenção à diversidade e o apoio aos alunos com dificuldades devem permanecer como práticas permanentes. Outro erro é responsabilizar exclusivamente o professor pelo sucesso da recomposição. A recomposição é uma política pública que exige condições adequadas de trabalho, formação, recursos e apoio da gestão.
8. A Avaliação na Perspectiva da Recomposição: Formativa e para a AprendizagemO decreto enfatiza a centralidade da avaliação formativa no processo de recomposição. A avaliação não deve ser um momento terminal de verificação, mas um processo contínuo que fornece informações para o professor e para o aluno sobre o que já foi aprendido e o que ainda precisa ser trabalhado. As características da avaliação na recomposição incluem:
- Foco no diagnóstico: Identificar as lacunas e as potencialidades de cada aluno.
- Ênfase no processo: Acompanhar a evolução do aluno ao longo do tempo, e não apenas em momentos pontuais.
- Utilização de múltiplos instrumentos: Provas, observações, portfólios, autoavaliação, atividades práticas.
- Feedback constante e de qualidade: Informar o aluno sobre seu desempenho de forma clara, específica e encorajadora, apontando caminhos para melhorar.
- Articulação com o planejamento: Os resultados das avaliações devem ser utilizados para ajustar o planejamento das aulas e das intervenções pedagógicas.
9. A Dimensão Socioemocional na RecomposiçãoO decreto reconhece que a pandemia não afetou apenas a aprendizagem cognitiva, mas também a saúde mental e o bem-estar socioemocional de alunos e professores. Por isso, a política de recomposição prevê a integração de ações de apoio socioemocional. Isso inclui:
- Promover um clima escolar acolhedor, seguro e que valorize o diálogo e a escuta.
- Desenvolver intencionalmente competências socioemocionais como empatia, cooperação, autoconhecimento, autorregulação e resiliência.
- Estar atento a sinais de sofrimento psíquico (ansiedade, depressão, automutilação) e saber encaminhar para os serviços de apoio (psicólogo escolar, CAPS, Conselho Tutelar).
- Cuidar também da saúde mental dos professores, oferecendo espaços de escuta e apoio.
Em síntese, o Decreto nº 12.391/2025 e a Política Nacional de Recomposição das Aprendizagens representam um esforço inédito e necessário para enfrentar uma das maiores crises educacionais de nossa história. Para o professor, conhecer os fundamentos, os eixos e as estratégias dessa política é essencial para atuar de forma qualificada nesse contexto desafiador. A recomposição das aprendizagens não é uma tarefa simples, mas um compromisso ético e profissional com o direito de cada aluno a aprender e a se desenvolver plenamente, superando as adversidades e construindo um futuro com mais oportunidades.